Uma das perguntas mais curiosas para quem observa o mercado financeiro é: por que o petróleo ainda é medido em barris. Na prática, ninguém compra fisicamente um barril de madeira; o produto nem sequer é transportado dessa forma hoje em dia. Mas para entender a prática, fomos atrás da história original.
O que são barris de petróleo?
Para entender a origem dessa medida, precisamos voltar no tempo, especificamente para os primeiros campos de petróleo da Pensilvânia, nos EUA, na década de 1860. Nos primórdios da exploração, o petróleo extraído não tinha um recipiente dedicado. O produto era armazenado em qualquer vasilhame disponível – de jarros de cerâmica a caixotes -, o que tornava a comercialização um pesadelo logístico. Como cada recipiente tinha um tamanho diferente, era quase impossível determinar com precisão a quantidade comprada ou vendida.
Com o crescimento acelerado da indústria no século XIX, os exploradores precisaram padronizar o transporte para levar o óleo pelo país. A inspiração veio de outra indústria pujante da época: a do uísque. Os destiladores transportavam o líquido dourado em barris de madeira de tamanho padrão de 40 galões.
Em vez de reinventar a roda, os produtores de petróleo adotaram o mesmo recipiente. No entanto, eles fizeram um ajuste técnico: criaram o barril de 40 galões, mas adicionaram 2 galões extras para compensar eventuais derramamentos, vazamentos ou evaporação durante as longas e sacolejantes viagens de carroça. Essa mudança foi revolucionária, permitindo que os compradores soubessem exatamente o volume adquirido, algo fundamental para o nascimento do mercado de capitais voltado ao setor.
Atualmente, bombear petróleo bruto para recipientes individuais de madeira seria ineficiente e um desastre econômico. O óleo é transportado por oleodutos ou bombeado diretamente para gigantescos navios-tanque e cargueiros. Contudo, o conceito do barril permaneceu como uma unidade de conta.
Mas por que a sigla do barril é “bbl”? Existe uma lenda persistente de que o termo significaria “Blue Barrel” (Barril Azul). A história conta que a Standard Oil Company, do magnata John D. Rockefeller, pintava seus barris de azul para garantir que os clientes soubessem que estavam recebendo o volume integral de 42 galões. Embora essa versão seja charmosa, a sigla “bbl” já aparecia em documentos muito antes de 1859, data que marca o início da indústria petrolífera moderna. Suas origens exatas permanecem desconhecidas, mas o termo acabou se perpetuando como o padrão global.
Por que a cotação é em dólar?
A maioria dos países usa o dólar para comprar petróleo, mesmo que não sejam os EUA comprando ou vendendo. Isso acontece porque, historicamente, os americanos foram os maiores produtores e exportadores do mundo (desde a época de Rockefeller).
Na década de 70, após a crise do petróleo, países árabes começaram a ganhar muito dinheiro e decidiram investir esse lucro nos EUA, por ser o mercado mais seguro e fácil de movimentar grandes quantias. Não foi um pacto secreto, foi uma escolha de negócio: o dólar oferece segurança jurídica e estabilidade que outras moedas não têm.
Isso dá uma vantagem enorme aos EUA, pois o mundo todo precisa ter dólares na mão para comprar energia, o que mantém a moeda valorizada. Hoje, embora a China tenha muito peso e países como a Rússia tentem fugir do dólar por causa de guerras e sanções, a moeda americana continua sendo a regra do jogo. O fim desse domínio ainda está longe de acontecer.
O que se faz com o petróleo?
O petróleo bruto, em seu estado natural, tem pouca utilidade imediata. É no processo de refino que ele se desmembra em uma série de produtos essenciais. A refinaria funciona como uma grande cozinha química que separa os componentes do óleo conforme seus pontos de ebulição. Embora a gasolina seja o produto mais famoso, ela representa menos da metade do que sai de um barril refinado.
Gasolina: a gasolina corresponde a cerca de 20 galões de um barril de 42 galões, ou aproximadamente 45% do volume total. Sua função primordial é mover o mundo, servindo como fonte de energia para veículos de passageiros. Nas centrais de mistura, a gasolina pura é combinada com etanol e aditivos específicos, resultando em diferentes categorias de performance, como a Regular, Intermediária e Premium. Devido à complexidade dos aditivos exigidos por diferentes mercados, as refinarias muitas vezes não processam totalmente o produto final, enviando-o para bases de distribuição que finalizam a “receita” de acordo com a necessidade local.
Diesel e Óleo de Aquecimento: logo em seguida, com cerca de 12 galões (25% do barril), temos o diesel com ultrabaixo teor de enxofre (ULSD) e o óleo combustível para aquecimento. Desde 2006, diretrizes ambientais rigorosas exigem que o diesel seja convertido para a versão ULSD para reduzir a emissão de poluentes. Esse combustível é a espinha dorsal da logística mundial, movendo caminhões, trens e maquinário pesado. Curiosamente, o óleo de aquecimento, vital para manter casas aquecidas em regiões frias como o nordeste dos EUA, possui uma estrutura química quase idêntica ao diesel, o que faz com que seus preços caminhem lado a lado no mercado.
Querosene e Combustível de Aviação: o querosene é um destilado leve que ocupa cerca de 4 galões (9%) de um barril. Historicamente usado em lamparinas e fogões, hoje sua variante mais nobre alimenta os céus. O combustível de aviação (Jet Fuel) é essencial para motores a jato modernos, tanto na aviação comercial quanto militar. Sem esse componente específico derivado do refino, a conectividade global que temos hoje seria impossível.
Hidrocarbonetos, Gás Líquido e Combustível Residual: aproximadamente 2 galões de cada barril são convertidos em líquidos de gás natural hidrocarbonetos. Isso inclui o etano, o propano e o butano. Estes gases são a base para a criação de plásticos, borracha sintética e até combustíveis domésticos. O que sobra após esse refino fino é o combustível residual (cerca de 1 galão). Por ser mais denso e “sujo”, esse resíduo é utilizado em usinas termelétricas de grande porte ou como combustível para os gigantescos navios mercantes que cruzam os oceanos.
Outros produtos: os últimos 13% do barril compõem uma seção vasta de subprodutos que moldam nossa infraestrutura. Aqui encontramos o asfalto que pavimenta nossas estradas, lubrificantes para motores, parafinas para velas e a nafta, base fundamental para a indústria petroquímica. No total, os cerca de 23 litros restantes dessa fração “outros” estão presentes em uma gama infinita de aplicações, desde o revestimento de fios elétricos até componentes de dispositivos eletrônicos.
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