O etanol abastece o Brasil há décadas. Na bomba do posto, ele parece um produto único, homogêneo, sem passado. No campo e na indústria, porém, o combustível carrega histórias distintas, ligadas à terra, ao clima, à logística e às matérias-primas que dão origem a cada litro. Cana-de-açúcar, milho, resíduos agrícolas. Cada fonte molda um tipo de etanol, com custos, impactos ambientais e cadeias produtivas própria.
O país construiu uma relação singular com o biocombustível. Nenhuma outra economia de grande porte integrou de forma tão profunda o etanol à sua matriz energética. Essa trajetória passa, necessariamente, pelas lavouras e pelas escolhas feitas ao longo do tempo sobre quais matérias-primas plantar, processar e transformar em energia.
O que é o etanol e para que serve
O etanol, também chamado de álcool etílico, é um composto orgânico da família dos álcoois, representado pela fórmula química C₂H₆O. Produzido a partir da fermentação de açúcares ou do amido presente em vegetais, tornou-se um dos principais biocombustíveis do mundo.
No Brasil, o etanol ultrapassou a condição de alternativa energética e passou a ocupar posição central no sistema de transportes. É usado como combustível automotivo de forma direta, no caso do etanol hidratado, ou misturado à gasolina, como etanol anidro. A mistura brasileira chega a 27%, percentual superior ao adotado pela maioria dos países que utilizam biocombustíveis em larga escala.
A função do etanol vai além de movimentar veículos. O produto melhora a qualidade da queima da gasolina ao aumentar a oxigenação da mistura, reduzindo emissões de poluentes locais. Estudos técnicos indicam que o etanol de cana-de-açúcar pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa quando comparado à gasolina de origem fóssil, considerando todo o ciclo de vida do combustível.
O desempenho também pesa. O etanol possui alta octanagem, característica que permite maior taxa de compressão nos motores. Isso se traduz em melhor rendimento térmico e maior potência. A tecnologia flex, desenvolvida e difundida no Brasil a partir dos anos 2000, explora essa vantagem ao permitir o uso de etanol, gasolina ou qualquer proporção entre ambos.
Fora dos postos, o etanol está presente em bebidas alcoólicas, medicamentos, cosméticos, produtos de limpeza e processos industriais diversos. A versatilidade do composto explica sua presença em cadeias produtivas que vão da indústria farmacêutica à química pesada.
Quais são as matérias-primas do etanol
A produção de etanol se apoia em fontes renováveis de origem vegetal. Essas fontes são classificadas em três grandes grupos, de acordo com o tipo de carboidrato predominante: açúcar, amido ou celulose. Essa divisão define a rota tecnológica adotada pelas usinas, o custo do processo e os subprodutos gerados.
O setor costuma trabalhar com duas categorias principais. O etanol de primeira geração é obtido a partir de açúcares simples ou do amido. O etanol de segunda geração, conhecido como etanol celulósico, utiliza a celulose presente em resíduos vegetais. A diferença entre essas rotas ajuda a entender o estágio tecnológico de cada país e as perspectivas de expansão do biocombustível.
Cana de açúcar
Matérias-primas açucaradas oferecem vantagens operacionais. Os açúcares já estão prontos para a fermentação, o que reduz etapas industriais, consumo de energia e complexidade do processo.
A cana-de-açúcar é a base do etanol brasileiro. O clima tropical, a elevada produtividade agrícola e décadas de aprimoramento tecnológico transformaram o país no maior produtor mundial de etanol de cana. O diferencial está no aproveitamento quase integral da planta.
Do caldo extraído nasce o etanol de primeira geração. Do restante surgem subprodutos industriais relevantes:
- Bagaço, usado para gerar energia elétrica e vapor nas próprias usinas, além de servir como insumo para o etanol de segunda geração
- Palha, aproveitada para bioenergia ou mantida no solo, contribuindo para a conservação agrícola
- Vinhaça, aplicada na fertirrigação dos canaviais
- Torta de filtro, utilizada como fertilizante orgânico
- Melaço, direcionado à produção adicional de etanol ou a outros usos industriais
Esse modelo integrado permitiu que as usinas brasileiras evoluíssem para biorrefinarias, capazes de produzir combustível, açúcar e energia elétrica em um mesmo complexo industrial.
Outras culturas açucaradas aparecem em contextos específicos. A beterraba sacarina domina a produção de etanol em diversos países europeus. O sorgo doce surge como alternativa em regiões com restrição hídrica, embora ainda tenha participação limitada no mercado.
Milho
Matérias-primas amiláceas também dão origem ao etanol de primeira geração, mas exigem uma etapa adicional. O amido precisa ser convertido em açúcares simples antes da fermentação.
O milho é o principal exemplo. Nos Estados Unidos, responde pela maior parte da produção de etanol. No Brasil, o etanol de milho ganhou espaço nos últimos anos, sobretudo no Centro-Oeste, região com grande oferta do grão e logística integrada à produção de proteína animal.
O processo gera subprodutos com valor comercial:
- DDG e DDGS, utilizados na alimentação animal
- Óleo de milho, aplicado nas indústrias alimentícia, química e de biodiesel
Trigo, cevada e mandioca também podem ser usados na produção de etanol, embora em escala menor. A mandioca, por exemplo, aparece como alternativa em regiões tropicais, onde o cultivo é tradicional e a logística favorece o processamento local.
Celulose
As matérias-primas celulósicas formam a base do etanol de segunda geração. Nesse grupo entram o bagaço e a palha da cana, resíduos agrícolas, lascas de madeira e culturas energéticas desenvolvidas para esse fim.
A rota tecnológica é mais complexa. A celulose apresenta uma estrutura resistente, que exige pré-tratamentos físicos, químicos e enzimáticos para liberar os açúcares fermentáveis. O desafio técnico é compensado por ganhos ambientais e produtivos.
O uso de resíduos amplia a produção de etanol sem necessidade de expandir a área agrícola. Também reduz a competição com a produção de alimentos. Entre os subprodutos desse processo está a lignina, utilizada na geração de energia e no desenvolvimento de materiais industriais.
No Brasil, o etanol de segunda geração ainda ocupa espaço limitado, mas é visto como peça estratégica para elevar a produção nacional com menor impacto ambiental.
Confira a tabela comparativa das principais matérias-primas
| Matéria-prima | Tipo | Facilidade de processamento | Produtividade de etanol por hectare | Exemplo de uso |
|---|---|---|---|---|
| Cana-de-açúcar | Açúcar | Alta | Muito alta | Brasil, Etanol hidratado |
| Beterraba sacarina | Açúcar | Alta | Moderada | Europa |
| Sorgo doce | Açúcar | Moderada | Moderada | Produção localizada |
| Milho | Amido | Média | Alta | EUA |
| Trigo | Amido | Média | Média | Produção secundária |
| Cevada | Amido | Média | Média | Produção secundária |
| Mandioca | Amido | Média | Média | Regiões tropicais |
| Resíduos agrícolas | Celulose | Baixa | Variável | Etanol celulósico |
| Lascas de madeira | Celulose | Baixa | Variável | Etanol avançado |
| Culturas energéticas | Celulose | Baixa | Alta (potencial) | Produção futura |
Como o etanol é produzido
A lógica industrial da produção de etanol segue etapas bem definidas, com variações conforme a matéria-prima utilizada.
O pré-tratamento abre o processo. No caso do amido, enzimas quebram as cadeias longas em açúcares simples. Materiais celulósicos passam por processos mais intensos, que combinam moagem, calor, reagentes químicos e ação enzimática.
A fermentação transforma açúcar em álcool. Leveduras como a Saccharomyces cerevisiae ou bactérias específicas convertem os açúcares em etanol e dióxido de carbono. O processo ocorre em tanques com controle rigoroso de temperatura e pH. O líquido resultante recebe o nome de “cerveja” no jargão industrial.
A destilação separa o etanol da água. O aquecimento da mistura faz com que o álcool evapore primeiro, por ter ponto de ebulição mais baixo. O vapor é condensado e coletado. Etapas adicionais refinam o produto.
A purificação e a desidratação removem a água residual. Técnicas como peneiras moleculares e membranas seletivas permitem alcançar o grau de pureza exigido para uso como combustível.
A desnaturação diferencia o etanol combustível do álcool destinado ao consumo humano. Pequenas quantidades de gasolina ou outras substâncias tornam o produto impróprio para ingestão, conforme exigência legal.
O etanol no Brasil
O Brasil lidera a produção mundial de etanol de cana-de-açúcar e ocupa a segunda posição global, atrás apenas dos Estados Unidos. Na safra 2023-2024, a produção nacional alcançou cerca de 35,9 bilhões de litros. A maior parte desse volume permanece no mercado interno, abastecendo veículos flex ou compondo a mistura da gasolina.
A eficiência do modelo brasileiro está ligada à produtividade da cana, ao clima favorável e à integração entre diferentes cadeias produtivas. O bagaço da cana gera energia elétrica. A vinhaça retorna ao campo como fertilizante. A indústria fecha ciclos e reduz desperdícios.
A história do etanol no país ganhou impulso nos anos 1970. O choque do petróleo de 1973 expôs a dependência externa e levou o governo federal a lançar o Programa Nacional do Álcool, o ProÁlcool. A política pública incentivou o plantio, a construção de usinas e o desenvolvimento de motores a álcool.
Para ter ideia da relação do Brasil com o Etanol, em 1979 o Fiat 147 entrou para a história como o primeiro carro do mundo produzido em série para rodar exclusivamente com álcool. O modelo enfrentou estradas precárias, variações climáticas extremas e ajudou a consolidar a tecnologia. O então presidente João Figueiredo participou de um test drive simbólico, transformado em imagem de época.
Alutal e tecnologia nacional a serviço da indústria do etanol
O protagonismo brasileiro no etanol não se limita à lavoura ou ao volume produzido. A indústria desenvolveu soluções próprias para controle de processos, automação e eficiência operacional. A Alutal atua nesse segmento com instrumentos e sistemas aplicados às diferentes etapas da produção.
A empresa oferece um portfólio de equipamentos e instrumentos utilizados em diferentes etapas do processo produtivo, como controle de nível, vazão, pressão e temperatura, além de aplicações específicas em fermentação, destilação e geração de energia a partir do bagaço da cana.
Essas soluções contribuem diretamente para a estabilidade operacional das usinas, redução de perdas e maior confiabilidade nos processos industriais. Em um setor que trabalha com grandes volumes, variações de carga e exigências ambientais rigorosas, medições precisas e equipamentos robustos fazem diferença no resultado final.
Com atuação consolidada no segmento de energia renovável, a Alutal acompanha a evolução tecnológica do etanol no Brasil, oferecendo soluções alinhadas à rotina das usinas e às demandas atuais do mercado.
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